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QUAL LUGAR A FIGURA DO NEGRO OCUPA DENTRO DO SENSO COMUM?

fevereiro 22, 2017

Algumas coisas nós já sabemos, como, por exemplo, que vivemos numa sociedade em que o racismo é uma das ferramentas usadas para manutenção de privilégios de uma determinada etnia, apesar de ser sabido também, mas não custa explicar novamente, dizer isto não é falar de indivíduos, é falar de branquitude enquanto conjunto social e todos os privilégios que são conferidos ao grupo, como poder entrar numa loja sem ser seguido, tendo como argumento base apenas a cor da sua pele.
Qual lugar a figura do negro ocupa dentro do senso comum? O Caso Madu.
Cientes de que esta é a base social, podemos concluir então que o "senso comum" (Senso comum é o modo de pensar da maioria das pessoas, são noções comumente admitidas pelos indivíduos. Significa o conhecimento adquirido pelo homem partir de experiências, vivências e observações do mundo. O senso comum se caracteriza por conhecimentos empíricos acumulados ao longo da vida e passados de geração em geração. É um saber que não se baseia em métodos ou conclusões científicas, e sim no modo comum e espontâneo de assimilar informações e conhecimentos úteis no cotidiano. Fonte: Significados.) desta sociedade também é racista, afinal foi construído por uma engrenagem que se alimenta disto para continuar mantendo a hierarquia.
E é vivendo dentro do "senso comum" que todos continuam ajudando o racismo à existir. Não problematizar o que acontece e justificar com "mas é assim mesmo" ou "é normal acontecer isto", sem levar em consideração de que seu conceito de normalidade é uma construção social, faz com que este sistema se mostre um plano perfeito.

Qual lugar a figura do negro ocupa dentro do senso comum? O Caso Madu. (Foto - Arquivo Pessoal)
No começo deste mês (fevereiro, 2017), Marcella Eduarda Januária Carvalho (mais conhecida como Madu), mulher negra, periférica e cantora em Belo Horizonte, foi presa numa situação no mínimo absurda. Resumidamente, em Belo Horizonte e Região Metropolitana alguns ônibus foram incendiados por criminosos (segundo relatos, em represália às péssimas condições do presídio de Bicas, que fica na RM de Belo Horizonte) e, por este motivo, a polícia intensificou as rondas noturnas afim de proteger os veículos. Numa destas rondas conseguiram impedir dois criminosos de incendiar um ônibus coletivo, mas não prenderam somente os homens que eles tinham evidências concretas para isto, Madu havia coincidentemente dado sinal de parada (estando dentro do veículo), para descer no mesmo ponto que posteriormente os suspeitos embarcaram. Para a polícia, isto, associado ao fato da Madu ser uma jovem negra, pobre e moradora de uma ocupação urbana, foi motivo suficiente para ser dada como "parceira" dos criminosos e ser presa. À ela foi negado o direito de defesa, já que não foi apresentada diretamente ao juiz para contar sua versão dos fatos e anteriormente, o direito de se comunicar com a família, que só ficou sabendo da prisão no dia seguinte através da ligação anônima de um agente.
Após toda a coleção de absurdos relatada acima, a internet nos brinda com uma coleção de comentários vindo diretamente do "senso comum", já amplamente explicado neste texto. 
Qual lugar a figura do negro ocupa dentro do senso comum? O Caso Madu.
Não é "errado" pensar assim (não que eu considere isto certo, mas este não é um texto sobre juízo de valor), mas é exatamente o que acontece quando estamos dentro da ideia de que, no Brasil a democracia racial é real e não há uma estrutura racista mantendo a nossa sociedade como é, feita para acreditar que, a princípio, todo negro é culpado até que se prove o contrário. Se fizermos o exercício de imaginar, uma pessoa branca nesta situação e sem todas as "variáveis" de Madu, pobre e moradora de ocupação urbana (que sabemos da perseguição que estes moradores sofrem), receberia o mesmo tratamento? Seria julgada da mesma forma? Madu foi liberada, mediante pagamento de fiança, ainda obrigada a cumprir horários rígidos e a usar tornozeleira eletrônica para monitoramento, sem sequer ter sido ouvida por um juiz.
Aos negros brasileiros, pobres, em situação de rua, moradores de ocupações urbanas, favelas e, em algumas vezes, até mesmo os de classe média, é este o tratamento oferecido e geralmente a análise feita dentro do senso comum, sempre chega a mesma conclusão: "Vocês estão exagerando", "Isto não é racismo", "Chega de Mimimi", se esquecendo de levar em conta a nossa construção social, os parâmetros ensinados à todos nós para separarmos os "bons dos maus". Este padrão é branco, heteronormativo, machista e rico, fora deste padrão você sempre estará sujeito ao tratamento e o julgamento do senso comum.
E como resolver isto? Claro, se tivéssemos a resposta absoluta seria muito mais fácil, mas é preciso que cada indivíduo tome consciência da sua responsabilidade no desmonte desta grande estrutura que é o racismo, ajudando a combatê-lo dentro da área que lhe compete. Acredito ser meio utópico esperar que os privilégiados lutem contra o seu próprio privilégio, imaginar pessoas lutando para não ter mais os benefícios que hoje os mantém na frente? Pois é, isto é difícil realizar, mas nós enquanto pessoas negras temos mais próximo da realidade, a possibilidade de adquirir conhecimento e sair da reprodução de senso comum, enxergar a estrutura como ela realmente é, é talvez uma forma de mudá-la de maneira mais eficiente.
A falsa ideia de democracia racial é uma venda sobre nossos olhos, com ela nos ocupamos mais em reproduzir aquilo que a sociedade condicionou como verdade. Se a sociedade é racista em sua estrutura, logo, vamos repetir a essência dela: O RACISMO. Pensar com a própria cabeça, utilizando-se dos próprios argumentos, ouvir novos pontos de vista sem apresentar tanta resistência ao que contraria aquilo que você aprendeu por toda a vida, é uma porta para combatermos a disparidade que existe. Pense nisto!

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