Novembro Negro

NOVEMBRO NEGRO | SERVIÇO DE PRETO: CONHEÇA, IZAÚ VERAS

novembro 08, 2016

Foto: Acervo Pessoal | Izau Veras - Belo Horizonte
A educação do Brasil, principalmente a pública, tem sofrido vários e duros golpes nos últimos meses. O que o governo ilegítimo chama de "contenção de gastos" ou "medidas impopulares", pode ser definido como o caminho mais curto para o fim da educação pública de qualidade. Conhecer nos dias de hoje professores que buscam, ainda que nadando contra a maré, fazerem um bom trabalho para garantir uma educação inclusiva e socialmente correta, é um alento aos nossos corações. Enquanto futura educadora, posso dizer que conhecer profissionais como Izaú é como renovar as forças e as crenças de que, ser professor é um ato de resistência que se torna coletivo, quando levamos nossos alunos conosco nesta.  

O primeiro homem a aparecer aqui nesta série de entrevistas, Izaú Veras Gomes tem 24 anos e é Professor, Bacharel e Licenciado, de Educação Física, atualmente também leciona a disciplina de Música e Cultura Afro, que faz parte do currículo da escola em que trabalha, na rede municipal de Contagem. Confira a entrevista!

Izaú, você escolheu ou "foi escolhido" para ser professor? Quando? 
Aos poucos, durante a graduação, minha vontade de ser professor foi crescendo, vou sendo “escolhido” até o ponto em que inicio meus primeiros contatos com a escola na condição de futuro professor pelos estágios obrigatórios e bolsa de iniciação à docência (PIBID) e, finalmente, escolho ser professor da rede pública de ensino. Nesse processo comecei a me deparar com a fragilidade em minha formação para a educação das relações étnico-raciais. Com a deficiência no meu currículo de formação, plenamente embranquecido, tive de buscar formação sobre a corporeidade negra e suas práticas que poderiam estar presentes no universo da Educação Física escolar fora do meio acadêmico. Lá se foram experiências através das danças urbanas, do samba, da dança afro, de um ano de Capoeira interrompido por questões cotidianas e de tentar ressignificar tudo que havia aprendido na Educação Física até então, com o recorte racial. 

Na sua área de atuação, quais dificuldades ou barreiras podem ser relacionadas à questão racial?
Depois desse processo me deparo com a dificuldade de dialogar e conseguir construir uma prática pedagógica que dialogue com a cultura negra porque encontro professores desmotivados com a formação continuada, professores brancos que seguem na comodidade do currículo tradicional e não tem sensibilidade para toda estrutura de exclusão produzida na escola para estudantes negros e negras, gestão que não dá apoio pedagógico e você percebe que a prática pedagógica para a valorização da cultura negra e indígena ainda se dá quase que totalmente por professores militantes, quando deveria ser uma causa comum da escola. É difícil lidar com olhares e falas dos colegas de profissão sobre “os vagabundos que não querem nada” e “preguiçosas” todos os dias, a gente vai adoecendo e quem não me faz desistir são esses estudantes. 

E no cotidiano, é possível inserir seu posicionamento crítico à cerca das questões raciais e realizar intervenções positivas?
Sim, meu posicionamento crítico se insere quando chego todos os dias as 6:40 na escola com meu corpo, minha história, minha estética, no meu trato com os estudantes negros e negras, e, inevitavelmente, tudo isso vai até o final da manhã. Meu posicionamento também se dá na escolha dos conteúdos e neles me encontro sempre num campo minado ao tratar das questões raciais com adolescentes em um processo de formação identitária conturbado, permeado por apagamento das suas identidades, da sua cultura, por imposições religiosas, familiares e afins, no qual uma palavra pode cortar de vez várias possibilidades, mas aos poucos vou aprendendo mais estratégias e adquirindo experiência.

Qual conselho você daria àqueles que, assim como você, desejam seguir atuando como professores, seja de educação física ou outras matérias tão fundamentais quanto?
A gente precisa tomar e ocupar os mais diversos espaços. O negro tem o direito de ser o que quiser e para isso, precisamos de professores e professoras negras nessa luta!

Amanhã, uma nova entrevista, com uma profissional de outra área. Vamos juntos dar um novo significado à esta expressão, nós podemos tudo! |Entrevista Anterior|

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