Belo Horizonte

SEMINÁRIO MUNDIAL DAS ARTES E CULTURAS NEGRAS

junho 11, 2016

"PARA ALÉM DO DO QUE SE VÊ" este foi o slogan do Seminário Mundial das Artes e Culturas Negras que aconteceu em Belo Horizonte nos dias nove e dez de junho. O seminário é uma das ações de preparação que Minas Gerais realiza para receber o FESMAN 2017 (Festival Mundial de Artes Negras).
SEMINÁRIO MUNDIAL DAS ARTES E CULTURAS NEGRAS 2016 (Belo Horizonte)
Nos dias nove e dez de junho eu tive o prazer de participar do Seminário Mundial das Artes e Culturas Negras realizado pelo Governo de Minas em Belo Horizonte em parceria com diversas entidades Negras de Belo Horizonte. O seminário apresentou mesas de discussão que buscavam agregar nomes, sugestões, pautas e direções para o encaminhamento do FESMAN - Festival Mundial de Artes Negras que acontecerá em Belo Horizonte em outubro do próximo ano. O seminário abre as discussões que ocorrerão nos próximos 16 meses que antecipam a realização do festival, artistas e intelectuais negros de todo mundo foram convidados a trazer suas contribuições para a construção deste momento tão importante. Uma das principais missões do festival no próximo ano com certeza é desmitificar as artes e culturas negras, trazendo a tona os verdadeiros créditos pela maioria de tudo aquilo que o mundo europeu se apropriou como se fosse nascido com eles, quando na verdade não é.
Na solenidade de abertura estiveram presentes o Secretário de Estado da Cultura de Minas Gerais (Ângelo Oswaldo), o Secretário de Estado de Direitos Humanos, Participação Social e Cidadania (Nilmário Miranda), a Ministra-Chefe de Estado do Ministério das Mulheres da Igualdade Racial e dos Diretos Humanos, grande e guerreira Nilma Lino Gomes (SIM, ministra e não ex-ministra. Este blog não reconhece este governo golpista bem como seus ministros igualmente colaboradores do golpe de estado) além de outros representantes de diversas áreas do governo estadual que estarão juntas na realização deste importantíssimo festival em Belo Horizonte.
SEMINÁRIO MUNDIAL DAS ARTES E CULTURAS NEGRAS 2016 (Belo Horizonte)
As mesas de discussão foram mediadas por grandes personalidades negras que além de terem um currículo acadêmico extenso e brilhante em suas áreas tem a consciência de que nossa ancestralidade conta muito na arquitetura de ações e mobilizações como estas que ocorrerão até outubro de 2017 quando o Festival Mundial e Artes Negras acontecerá na nossa cidade. O Seminário Mundial de Artes e Culturas Negras apresentou quatro mesas de discussões com contribuições substanciais ao que conhecemos como conceitos de: identidade racial, negritude, identificação da diáspora negra ao redor do mundo, identificação da cultura e das artes negras e principalmente o reconhecimento daquilo que de fato é nosso e nos pertence enquanto povo negro descendente africano. 

A primeira mesa foi mediada por Dulce Maria Pereira, Arquiteta professora e pesquisadora da UFOP, coordenadora do programa Escolas Sustentáveis, Diretora de Relações Internacionais NEAB/UFOP, Feminista Negra e Integrante do MNU (Movimento Negro Unificado), teve como tema central "A década dos Afrodescendentes: as Artes e a Cultura Negra". Os presentes neste mesa trouxeram para a discussão pontos importantes a serem considerados no FESMAN e destaco em especial o Professor de Sociologia e Estudos Africanos da Universidade da Pensilvânia (EUA), Tukufu Zuberi falou brilhantemente sobre a diáspora negra ao redor do mundo, o mito do DNA que algumas empresas vendem como possível identificar sua tribo de origem ou povo de onde você veio, destacou que nem sequer os povos nativos africanos são 100% "puros" quando se trata de mistura de famílias e pessoas e que seria uma ilusão acreditar que um exame de DNA diria exatamente a região de onde seus ancestrais saíram.  Além de destacar a importância de nos reconhecermos como povo e manter esta união ainda que fora das terras africanas. Tukufu Zuberi é um estudioso que se dedica a entender o comportamento dos povos negros fora de Africa e afirma que entender os aspectos culturais e relacionar as definições históricas é basicamente uma luta política pela nossa identidade africana e que nenhum teste de negritude é capaz de fazer esta construção, apenas cada negro na sua formulação cultural.
No dia dez de junho, outras três mesas de discussão importantes foram trazidas para nós nos Seminário Mundial das Artes e Culturas Negras. Mais um dia de foco na discussão de como nos identificar enquanto negros africanos na diáspora, a difícil missão de encontrar a tal "identidade do negro brasileiro" nos dias atuais. 
A última mesa, mediada por João Carlos Nogueira (integrante/coordenador da Rede Brasil Afroempreendedor) contou com uma discussão muito importante: "África/Diáspora: Economia, Desenvolvimento e Sustentabilidade". De todas as falas que agregaram a todos ali, uma das que mais me marcou com certeza foi a discussão trazida pela maravilhosa Ângela Gomes, pesquisadora da área da Biologia estuda as plantas como cura, cultura e ancestralidade. Ângela nos trouxe o ponto de vista de que o uso da terra com consciência e respeito é uma característica inata da cultura africana e que é preciso nos aprofundarmos cada vez mais e conhecer a verdadeira origem de tudo que plantamos, colhemos e consumimos. Ângela Gomes menciona como o saber ancestral vem sendo ocultado pelo véu da invisibilização colonialista. O arroz, o algodão, a cana de açúcar, o tabaco, o café e mais uma série de alimentos que consumimos e compramos a história de que são de origem européia ou asiática são na verdade de origem africana e foram trazidos através deste "atlântico negro". Entre as tantas coisas que pude aprender no Seminário Mundial das Artes e Culturas Negras com certeza a história que nunca vou me esquecer ou deixar de espalhar é que graças as mães que sabiam que seus filhos seriam enviados como escravos para este país é que hoje comemos arroz. Sabe aquela história de que o arroz veio da China? Pois é, enganaram a você também! O arroz veio da áfrica com suas sementes escondidas nos cabelos crespos das crianças cuja as mães já pensavam no seu futuro alimentar. Estas mulheres negras, preparavam seus filhos e pensavam na maior parte de sofrimentos que poderiam reduzir e esta foi uma das formas que encontraram. A visão de que devemos dar e receber a terra para continuarmos usufruindo dela é um conceito de sustentabilidade africano que deve ser valorizado, aculturado e levado adiante na nossa diáspora.
SEMINÁRIO MUNDIAL DAS ARTES E CULTURAS NEGRAS 2016 (Belo Horizonte)
Ângela Gomes, Epsy Campbell (Deputada - Costa Rica), Lívia Teodoro
Certamente como ação de abertura o Seminário Mundial das Artes Negras foi um belíssimo começo. Aprendizado, troca de culturas, conteúdos e conhecimento. Ao longo dos próximos dezesseis meses outras ações serão realizadas e considero de extrema importância que a sociedade civil, os ativistas digitais e todo o povo negro esteja por dentro de tudo isto. A diáspora africana do Brasil está valorizando cada dia mais sua cultura e pensando ações para que esta cultura deixe de ser considerada algo "exótico" e passe a ser parte do calendário de ações deste país, não seremos mais negros apenas no dia ou na semana da consciência negra. Que venha o FESMAN 2017! 

Você também pode gostar disso

0 comentários

Deixe aqui seu comentário, dica ou feedback!

FACEBOOK

RECEBA AS NOVIDADES POR E-MAIL