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COMO A EDUCAÇÃO SEXUAL REFLETE O PUDOR DOS LARES BRASILEIROS

março 18, 2017

A partir de agora, haverá neste blog uma série de textos e posts para falar da opressão na educação sexual que ocorre no Brasil. Ao conversar com amigas, é comum percebermos o grande número de mulheres, inclusive da nossa geração, que é considerada "mais moderninha", que desconhece ou tem medo de conhecer os detalhes do seu corpo e vivenciar a sua sexualidade. Isto não é coincidência ou acaso, historicamente somos moldadas à não viver com plenitude várias as aspectos de nossas vidas, entre eles a sexualidade e a exploração do nosso corpo, principalmente as mulheres neste último caso. Por considerar importante esta discussão e essencial para ajudar estas mulheres, vamos falar mais sobre a fisiologia do corpo feminino, masturbação, prazer e muitos outros assuntos considerados tabus.
Vivemos numa sociedade machista, patriarcal, onde ainda é considerado assunto proibido o prazer da mulher, o corpo feminino, suas particularidades e, alguns pontos, chegam a ser tratados como "errados ou sujos" desde a infância. Assuntos como estes, deveriam ser tratados com naturalidade, para que nossas jovens mulheres pudessem ter mais autonomia sobre o próprio corpo, vontades e poder fazer escolhas conscientes, sem depender de que uma outra pessoa lhe diga como deve ser o seu gosto, mas não é assim que acontece.
Sala de aula - Brasil 1920 - Blog Na Veia da Nêga - Contextualizando a Educação Sexual Opressora
Historicamente a Educação Sexual dentro das salas de aula sempre teve um caráter opressor e higienista, buscando ensinar através de conceitos moralistas ou religiosos que hábitos, que sabemos ser saudáveis para os seres humanos, deveriam ser combatidos e abolidos da vida dos nossos jovens e crianças. A França é considerado berço da escolarização incluindo educação sexual, porém com fim de reprimir também atos como masturbação, inclusive dos meninos, por exemplo, por lá, por volta do século XVIII já se discutia algo ligado a Educação Sexual em ambiente escolar, afim de reprimir qualquer expressão considerada sexualizada e "proteger" as crianças de qualquer comportamento que pudesse ser ligado a isto. Precisamos nos contextualizar historicamente também de que, no século XVIII apesar de ser marcado por diversas revoluções consideradas "a frente do tempo" para época, o sexo e todo seu contexto era assunto proibido. O ato sexual era considerado uma "obrigação impura" por muitos, uma tarefa que só se fazia por não haver outro meio de reproduzir a espécie, quase um sacrifício. 
Seguindo para o período contemporâneo da história, no século XX a educação sexual passa a abordar o foco reprodutivo, utilizada na França, por exemplo, para reforçar como positiva a lei que proibia o aborto (sancionada em 1920) ou mesmo justificar a proibição de propagandas de métodos contraceptivos (preservativo e DIU, por exemplo). Até então, o foco era apenas reprimir mas ganhou também a função de tornar o controle das práticas uma meta, mostrando que os governos se preocupavam em dar ao sexo a função de somente reprodução, proibindo o uso de métodos contraceptivos e criminalizando o aborto. A igreja católica tem grande participação neste enfoque que a educação sexual ganhou pelo mundo, afinal, o cristianismo não admite o sexo como uma prática apenas para o prazer, mas sim, ato para fins bíblicos, justificados pelo "crescei-vos e multiplicai-vos". 
Falando especificamente do Brasil, a educação sexual também teve (e ainda tem) caráter opressor que buscava reprimir expressões da sexualidade, desejos e, principalmente, ensinar às crianças que o papel do sexo era somente levar os seres humanos a se reproduzirem, com a igreja ajudando a reforçar a ideia de que sentir prazer com isto era errado. 
De 1920 até o fim da ditadura militar, o nosso país era um campo de repressão constante, que se utilizava da educação sexual como ferramenta para fazê-lo. Como já foi dito neste blog, a informação é arma de dominação, seja sendo ocultada ou liberada de forma incorreta e isto foi usado em todo este período como uma maneira de controlar a população. 
A década de 80 é considerada por historiadores da educação, um marco de avanços no campo da educação sexual, a população, livre dos ditadores e já podendo ir as ruas exigir o direito de escolher os próprios governantes, também começou a falar de sexo mais abertamente. O que não impediu, infelizmente, que o "crime de aborto" fosse incluído no nosso código penal, em 1984, penalizando as mulheres que precisassem recorrer a este método e assim permanece até os dias atuais. A França, país que proibiu o aborto em 1920, legalizou a prática em 1975, tornando-o uma questão de saúde pública, garantindo apoio emocional e segurança física para as mulheres.
Hoje no Brasil a educação sexual faz parte dos "Parâmetros Nacionais de Ensino" e orienta-se ocorrer de maneira transversal na educação, isso quer dizer que é responsabilidade de todos os professores inserirem este recorte em suas escolas, o que na prática não acontece, pois a maioria dos nossos educadores não está preparado para falar do assunto. Muitas vezes, inserindo seus conceitos religiosos ou morais à pauta, transformando a educação sexual em "falar de sexo", quando na verdade é muito mais que isto, pois a sexualidade humana é muito mais complexa.
Sala de aula - Brasil Sec. XXI - Blog Na Veia da Nêga - Contextualizando a Educação Sexual Opressora
Discute-se em plenário hoje, o que algumas pessoas chamam de "educação de gênero", um conceito que muitas pessoas acreditam que é defender "falar de sexo" para crianças, sem nenhum recorte, didática ou preparação para isto, fazendo com que assuntos pertinentes deixem de ser debatidos com a orientação de um professor, que poderia ser fundamental na hora de espalhar conhecimento de qualidade.
A Educação Sexual no Brasil, falando do ambiente escolar, sempre refletiu o que acontece em casa (ou o contrário seria o verdadeiro?), assuntos que são extremamente importantes para criarmos seres humanos conscientes, principalmente mulheres, são varridos para debaixo do tapete, ignorados ou muitas vezes podados, continuamos assim criando pessoas leigas quanto aos seus corpos, direitos reprodutivos, saúde sexual e tantos outros temas ligados a sexualidade. É preciso encontrar meios, enquanto profissionais da docência, de transversalizar este assunto e conseguir levá-lo da maneira mais responsável possível para dentro do ambiente escolar, garantindo assim jovens mais informados, que no futuro formarão de de maneira mais consistente aos seus filhos.

Fontes de pesquisa:

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