Novembro Negro

NOVEMBRO NEGRO | SERVIÇO DE PRETO: CONHEÇA, LAVÍNIA ROCHA

novembro 05, 2016

Foto: Taylor Abá Fotografia | Lavínia Rocha - Belo Horizonte
Lavínia Rocha tem 19 anos e é escritora! Isto mesmo, não se deixe enganar por esta carinha de menina, apesar da pouca idade, Lavínia já tem quatro livros publicados que fazem muito sucesso Brasil afora. Hoje Lavínia cursa história na mesma turma que eu, na Universidade Federal de Minas Gerais pude conhecer essa mulher negra, escritora, empoderada e muito talentosa. 
A profissão de Lavínia ainda não conta com curso superior no nosso país, mas não custa nada torcermos para o curso de Escrita Criativa chegar logo às nossas faculdades, podendo assim revelar novos talentos. Na entrevista de hoje, você vai conhecer um pouco mais sobre ela e a relação com esta profissão tão linda.

Você escolheu esta profissão ou “foi escolhida”? Quando?
Quando eu escrevi meu livro, aos 11 anos, eu não pensava que poderia me tornar escritora, parecia algo distante demais para mim. O que me levou a esse universo foi a insistência de uma amiga e o apoio da minha mãe. Hoje não consigo me ver fora da carreira de escritora. Aos 13 anos publiquei o primeiro livro, mas escrever era mais como um hobby. Quando fui contratada por uma editora e publiquei meu segundo livro, aos 17, tudo se tornou mais sério e mais profissional.

Alguma dificuldade na sua profissão, que possa ser relacionada às questões raciais?
O mundo editorial ainda é muito branco. Há dias estou tentando pensar em exemplos de autores negros que conheço, que fazem parte do meu convívio ou que escrevem para o mesmo público que eu, mas não consigo pensar em nem cinco colegas de profissão - isto porque participo de feiras, eventos e bate-papos em diversas cidades e acabo conhecendo muitos autores. Por esse motivo, colocar em debate a representatividade na literatura se torna uma tarefa extremamente árdua. Muitos colegas não têm o mínimo conhecimento, não se esforçam para isso ou pior: fazem um desserviço para a literatura ao criar personagens negros estereotipados e ao abordar racismo de forma desrespeitosa. Acho que essa seja uma das maiores dificuldades no universo literário.

Você considera possível inserir seu posicionamento crítico, acerca de raça, no dia a dia da sua profissão?
O tempo todo! Quando comecei a resgatar minha identidade negra, a ler sobre o movimento negro e a me cercar de amigos militantes, minha visão sobre o mundo mudou completamente. Antes sempre sentia necessidade de me parecer com as mocinhas e de me relacionar com garotos iguais aos mocinhos. Depois, com tudo que estava assimilando, me tornei uma pessoa mais crítica e percebi o que tanto me incomodava no mundo literário: nunca me senti representada. Associado a isso, comecei a ver que meus leitores assimilavam muito sobre sociedade inclusiva, o tema que escolhi para o meu segundo livro, De olhos fechados, em que a protagonista é cega, e foi aí que entendi o poder que a literatura pode exercer. Decidi usar essa ferramenta para criar personagens que eu gostaria de ter conhecido na minha adolescência e para abordar temas que precisamos discutir urgentemente, mas sempre com a noção de que escrevo para crianças e adolescentes e preciso trazer exemplos e situações cotidianas na linguagem deles.
Além dos livros, mantenho esse mesmo debate nas redes sociais, que atualmente são grandes aliadas dos escritores. Procuro sempre trazer textos, vídeos e imagens sobre o assunto, e é bastante gratificante vê-los interagindo comigo, debatendo sobre o tema e enviando mensagens de histórias pessoais.

Um bom conselho para quem deseja, assim como você, se tornar um escritor e sendo negro, no nosso país?
A carreira de escritor é bem complicada, mas a dica principal é: não desistam. Precisamos ocupar o mundo editorial, precisamos de personagens que nos representem e precisamos falar sobre racismo em uma sociedade que ainda acredita no mito da democracia racial! Então, ainda que haja muitas dificuldades, continuem persistindo e tentem de outras formas (como publicação em plataformas digitais, por exemplo)!

Amanhã, uma nova entrevista, com uma profissional de outra área. Vamos juntos dar um novo significado à esta expressão, nós podemos tudo! |Entrevista Anterior|

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1 comentários

  1. Amei participar dessa série de entrevistas tão especial!! Você arrasa muito, sou sua fã! ❤️

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