Ativismo Digital

O BRANQUEAMENTO DA SOCIEDADE BRASILEIRA

agosto 03, 2015



É espantosa a quantidade de manifestações dentro do movimento negro em relação ao que é ou a quem não deve ser considerado negro no nosso país. É procurando entender isso que estou me dedicando a ler sobre a "POLÍTICA DE BRANQUEAMENTO" adotada no Brasil após a abolição da escravatura em 1888. 
Após libertos era ínfima a quantidade de negros alfabetizados ou com condições de se manterem estáveis economicamente. Em contrapartida a raça branca, continuava buscando se autoafirmar sob a imposição de seus costumes e o resultado disso foi uma busca enlouquecida por embranquecer a população Brasileira.
Em São Paulo na década de 30 os clubes da "Sociedade Negra" estavam excluindo de seus membros todo e qualquer um que insistisse em manter "um pé na senzala". Diversos militantes negros da época consideravam que, para evoluir, melhorar e ser aceito o negro deveria se aproximar o máximo possível em comportamento e estética do branco. Sendo assim, aquele negro que insistia em frequentar rodas de samba, cultos de religiões afro-brasileiras, usar turbantes ou guias automaticamente era considerado indigno de fazer parte dessa sociedade.
O texto abaixo, foi escrito por um negro influente dentro do MN da época:
"Seguir os brancos nas suas conquistas e iniciativas felizes [...] será o marco inicial da segunda redempção dos negros [...]. Salientamos que a sua liberdade não foram elles [negros] que conseguiram. As tentativas que emprehenderam mallograram desastrosamente. E da mão do branco que odiavam receberam a liberdade dos seus sonhos! ( Folha da Manhã , São Paulo, 12/1/1930)."

Esse era o discurso empregado por negros na tentativa de anular a cultura do nosso povo e se parecer cada dia mais com os opressores. 
Vem daí o costume de ensinar que o povo negro não teve heróis capazes de lutar por suas causas e que tudo que o negro alcançou de positivo veio da mão de um branco. Foram anulados e aos poucos apagados diversos ícones negros e colocaram em seus lugares personagens brancos para que
o povo negro acreditasse que eles eram a raça exemplar a ser seguida. Esse comportamento serviu para reforçar a (ilusória) sensação de superioridade dos brancos e a sensação (dolorosa) de inferioridade dos negros.


O Branqueamento da sociedade no Brasil pode ser agrupado dentre 3 critérios:
O biológico, o social e o estético.

O "Branqueamento Biológico" nada mais é que "clarear as famílias" literalmente. Os relacionamentos inter-raciais foram extremamente incentivados afim de "melhorar a população brasileira" levando-a cada vez mais em direção a branquitude. O sonho de todo negro era que seus filhos e filhas se casassem com um indivíduo de pele mais clara e o sucesso era alcançado quando os filhos dessa união nasciam com a pele mais clara que seus pais. Por isso os negros de pele clara, não tem "culpa" e nem podem viver no limbo, por terem nascido assim. 
Nesta mesma época, diversos especialistas e defensores do Branqueamento do país defendiam também que a melhor forma de coroar o racismo é incutindo-o na cabeça dos negros, assim nós mesmos faríamos o papel de disseminá-lo e por meio de guerras internas nós nos auto-eliminaríamos sem que o branco precisasse ser acusado disto.

O "Branqueamento Social" fez o que vivenciamos até hoje. O objetivo era afastar os negros de suas raízes e tudo o mais que pudesse fazer qualquer referência a sua origem africana. Esse processo serviria para que o negro absorvesse toda a suposta cultura branca, bem como seus costumes, religião, falas e o que eles chamavam de "puritanismo social". Quanto maior fosse a "brancura da sua alma" maior as chances de você ser aceito e abraçado pela sociedade. E fazendo sempre questão de lembrar que os negros do Brasil não eram africanos e por isso não deveriam se apegar a nada que remetesse àquela terra.

Por último e não menos nojento o "Branqueamento Estético", este que nós conhecemos de cor e salteado. Também logo após a abolição houve um crescimento enorme na venda de produtos que prometiam alisar os cabelos e branquear a pele negra. Quanto mais você de aproximasse da estética branca, maior a probabilidade de ser abraçado pela sociedade. As negras eram incentivadas a usar pó de arroz branco para frequentar rodas sociais em que houvessem brancos. Por volta de 1930 chegou ao Brasil diversas marcas de "cremes branqueadores" que prometiam clarear a pele tornando o negro mais "apresentável", vários negros morreram tentando usar alvejantes e soda cáustica para clarear a pele. Acreditava-se que coisas absurdas como comer barro, tomar muito leite ou tomar pouco ou nenhum sol clarearia progressivamente a pele.

Outra medida importante que precisa ser citada, adotada pelos apoiadores da teoria de branqueamento do Brasil era evitar que os negros brasileiros tivessem contato com os negros estadunidenses. Segundo os apoiadores do branqueamento era muito arriscado para o processo deixar que se aproximassem negros com orgulho de sua raça, temia-se que os negros brasileiros se fechassem em clãs e bairros impedindo então que o branqueamento avançasse. 
Este texto publicado em 1930 destaca e exemplifica de forma clara a diferença do racismo brasileiro e o estadunidense, talvez esteja ai a explicação desse discurso vazio de que não podemos comparar o racismo do Brasil com os Estados Unidos:

Nós brasileiros costumamos orgulhar-nos da nossa bondade de coração, da nossa piedade e sentimentalismo generosos. Convictamente affirmamos em dose mais elevada que os outros povos.  Pretendendo ser mais humanos que os americanos, nós não lynchamos os negros, mas fizemos a extinguirmos completamente a raça negra, abandonando-a á ignorância, á degradação ao analphabetismo, á promiscuidade, á cachaça, á syphillis, a ociosidade.  Qual é o preferível — é sentimentalismo brasileiro ou a brutalidade americana?  O nosso sentimentalismo não é homicida?  Daqui a trinta ou cincoenta annos a raça negra está extinta no Brasil graças ao nosso sentimentalismo.  Os americanos lyncham cincoenta negros por anno. Nós matamos a raça negra inteira no Brasil. (O Clarim D'Alvorada, São Paulo, 28/9/1929:4)

A minha intenção com este post é escurecer alguns pontos importantes e tentar entender de onde vem essa dificuldade tanto de evitar relacionamentos branqueadores (afetivos, sociais e históricos) quanto a dificuldade de uma vertente do movimento negro aceitar os negros clareados.

Abaixo eu vou deixar todas as minhas fontes de leitura que usei para me aprofundar e fazer este texto, para quem quiser se aprofundar e ler mais pois este post é realmente só a ponta do icebergue!


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